Manifesto à Sociedade Brasileira e às
Famílias Enlutadas da Pandemia
Ao povo brasileiro,
Às mães e pais que enterraram seus filhos,
Aos filhos e filhas que perderam seus pais,
Aos avós que partiram sem despedida,
Às famílias brasileiras marcadas para sempre pela ausência.
O Brasil carrega uma ferida aberta.
Não se trata apenas de uma tragédia sanitária. Trata-se de uma tragédia humana, política, ética e histórica.
Milhares de famílias brasileiras foram condenadas à dor irreparável não apenas pela força devastadora de um vírus, mas também por decisões políticas, omissões deliberadas, negligência institucional e campanhas de desinformação promovidas durante a crise sanitária mais grave de nossa história recente.
Cada cadeira vazia à mesa, cada fotografia transformada em saudade, cada história interrompida carrega o peso de escolhas que poderiam ter sido diferentes.
A pandemia revelou o melhor da solidariedade brasileira, mas expôs o pior da irresponsabilidade pública.
Enquanto profissionais da saúde tombavam em hospitais superlotados, enquanto famílias imploravam por oxigênio, leitos, vacinas e dignidade, o governo de Jair Bolsonaro e ministros que o acompanharam em sua política negacionista desacreditaram a ciência, atacaram medidas sanitárias, estimularam aglomerações, atrasaram respostas institucionais urgentes e lançaram dúvidas onde deveria haver proteção e cuidado.
Essa escolha política teve consequências humanas concretas.
A morte de tantos brasileiros e brasileiras não pode ser reduzida a estatísticas frias nem apagada pelo tempo.
São nomes.
São rostos.
São sonhos interrompidos.
São crianças órfãs. São famílias devastadas. São pessoas com sequelas permanentes. São brasileiros que seguem vivos, mas carregam as marcas profundas da omissão estatal.
Escrevemos esta carta movidos pela dor do luto e pela amarga consciência de que muito desse sofrimento poderia ter sido evitado.
Se o governo federal tivesse apoiado a ciência, promovido a vacinação de forma célere, respeitado protocolos sanitários e exercido liderança pública responsável, milhares de vidas poderiam ter sido preservadas.
Escrevemos movidos pela responsabilidade histórica.
O luto coletivo brasileiro não pode ser silenciado, relativizado ou sequestrado por conveniências partidárias.
Quando decisões políticas ampliam sofrimento evitável, toda a sociedade tem o dever moral de reconhecer, investigar e exigir responsabilização.
Por isso afirmamos com clareza:
A condução política da pandemia pelo governo Bolsonaro deve ser registrada pela história como um dos mais graves episódios de negligência institucional da República.
Os agentes públicos que contribuíram para disseminar desinformação, sabotar medidas sanitárias e retardar respostas essenciais devem ser investigados e, comprovadas responsabilidades legais, responsabilizados em todas as esferas cabíveis — política, civil, administrativa e penal, nacional e internacionalmente.
Às famílias enlutadas, dizemos: Vocês não estão sozinhas.
Sua dor é parte da memória nacional.
Seus mortos importam.
Sua indignação é legítima.
Seu direito à verdade, à reparação e à justiça é inegociável.
À sociedade brasileira, fazemos um apelo:
Que jamais naturalizemos a morte evitável.
Que jamais aceitemos o negacionismo como opinião legítima diante da ciência e da vida.
Que jamais permitamos que projetos de poder valham mais que a dignidade humana.
A memória dos que partiram exige vigilância democrática.
Exige compromisso com a ciência.
Exige instituições fortes.
Exige responsabilidade pública.
Exige humanidade acima da ideologia.
Que a história registre com clareza quem escolheu proteger vidas e quem escolheu o cálculo político.
E que o Brasil, olhando para seus mortos, encontre coragem para reconstruir um pacto nacional baseado na verdade, na reparação histórica, na responsabilidade pública e no respeito absoluto à vida.
Pelos que se foram.
Pelos que ficaram.
Pelo Brasil que não pode esquecer.

