ENVELHECIMENTO ATIVO
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o envelhecimento saudável é o processo de desenvolvimento e manutenção da habilidade funcional que permite o bem-estar na velhice.
Conceitos Principais
Capacidade Funcional: É a combinação da capacidade intrínseca da pessoa (suas características físicas e mentais) com o ambiente em que vive e como ela interage com ele.
Autonomia e Independência: A autonomia é a capacidade de tomar decisões próprias; a independência é realizar tarefas diárias sem ajuda.
Diversidade: Não existe um idoso típico; as capacidades físicas e mentais variam muito de uma pessoa para outra na mesma idade.
Linhas de Ação (Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030)
A principal estratégia da OPAS/OMS foca em quatro áreas centrais:
1 Mudar a forma como pensamos e agimos em relação à idade e ao envelhecimento.
2 Garantir que as comunidades apoiem as capacidades das pessoas idosas.
3 Oferecer cuidados integrados de saúde que atendam às necessidades específicas da idade.
4 Garantir acesso a cuidados de longo prazo para quem precisa
PROTOCOLO DE SAÚDE, BEM-ESTAR E ENVELHECIMENTO ATIVO para o estado de são paulo
Uma proposta de cuidado integral para pessoas com 60 anos ou mais
Fundamentação: Organização das Nações Unidas (ONU), Organização Mundial da Saúde (OMS), Década das Nações Unidas do Envelhecimento Saudável 2021–2030, Plano de Ação Internacional de Madri sobre Envelhecimento – 2002 e abordagem ICOPE – Atenção Integrada para Pessoas Idosas.
1. APRESENTAÇÃO
O presente Protocolo de Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento Ativo tem como finalidade estabelecer diretrizes para promoção da saúde, prevenção de doenças e incapacidades, fortalecimento da autonomia, participação social, segurança, convivência comunitária e melhoria da qualidade de vida das pessoas idosas.
A proposta compreende o envelhecimento como um processo que ocorre ao longo de toda a vida e reconhece a pessoa idosa como sujeito de direitos, protagonista de sua história e participante ativa da sociedade.
O protocolo está alinhado à Década das Nações Unidas do Envelhecimento Saudável 2021–2030, proclamada pela Assembleia Geral da ONU por meio da Resolução 75/131, e ao Plano de Ação Internacional de Madri sobre Envelhecimento.
2. OBJETIVOS
Objetivo geral
Promover um modelo integral de saúde, bem-estar, autonomia, participação e segurança, contribuindo para que as pessoas possam envelhecer com dignidade, independência e qualidade de vida.
Objetivos específicos
Promover hábitos de vida saudáveis.
Prevenir doenças e incapacidades evitáveis.
Preservar e ampliar a capacidade funcional.
Promover saúde física e mental.
Incentivar atividade física adequada à condição individual.
Promover alimentação saudável e adequada.
Prevenir quedas, acidentes e outros agravos.
Combater isolamento social e solidão.
Estimular participação cultural, educacional, comunitária e política.
Promover autonomia e capacidade de decisão.
Identificar situações de violência, negligência, abandono e abuso.
Garantir acesso a serviços de saúde e assistência social.
Fortalecer redes familiares, comunitárias e intergeracionais.
Promover acessibilidade e ambientes amigáveis às pessoas idosas.
Desenvolver ações de educação permanente para o envelhecimento.
Construir planos individuais de cuidado quando houver necessidade.
3. PRINCÍPIOS
O protocolo deverá observar os seguintes princípios:
I – Dignidade humana
Toda pessoa idosa deve ser tratada com respeito, dignidade e igualdade.
II – Autonomia
A pessoa idosa deve participar das decisões relacionadas à sua vida, saúde e cuidados.
III – Independência
As ações devem buscar preservar a capacidade da pessoa de realizar suas atividades cotidianas.
IV – Participação social
A pessoa idosa deve ter oportunidades de participar da vida familiar, comunitária, cultural, econômica e política.
V – Equidade
As políticas e serviços devem considerar desigualdades sociais, econômicas, territoriais, raciais, de gênero, deficiência e outras condições que possam produzir vulnerabilidade.
VI – Integralidade
Saúde não deve ser compreendida apenas como ausência de doença, mas como condição relacionada ao bem-estar físico, mental, social e ambiental.
VII – Intersetorialidade
Saúde, assistência social, habitação, mobilidade, cultura, esporte, educação, segurança, trabalho e direitos humanos devem atuar de maneira articulada.
VIII – Envelhecimento ao longo da vida
A promoção do envelhecimento saudável deve começar antes da velhice e acompanhar todo o curso da vida.
4. OS TRÊS PILARES DO ENVELHECIMENTO ATIVO
A proposta adota os três pilares clássicos do marco de Envelhecimento Ativo da OMS:
SAÚDE
Promoção da saúde, prevenção de doenças, manutenção da capacidade funcional e acesso aos serviços.
PARTICIPAÇÃO
Participação social, comunitária, cultural, educacional, econômica e política.
SEGURANÇA
Proteção social, segurança econômica, proteção contra violência, abandono e negligência e acesso a ambientes seguros.
A OMS desenvolveu esse marco como contribuição à Segunda Assembleia Mundial das Nações Unidas sobre Envelhecimento, realizada em Madri em 2002.
5. EIXOS DO PROTOCOLO
EIXO 1 – SAÚDE FÍSICA
Promover:
acompanhamento periódico de saúde;
vacinação;
prevenção e controle de doenças crônicas;
avaliação de pressão arterial;
avaliação de diabetes e fatores de risco cardiovascular;
acompanhamento nutricional;
saúde bucal;
saúde visual;
saúde auditiva;
prevenção de quedas;
avaliação da mobilidade;
incentivo à atividade física;
reabilitação quando necessária.
EIXO 2 – SAÚDE MENTAL E BEM-ESTAR
Desenvolver ações de:
promoção da saúde mental;
prevenção do sofrimento emocional;
combate ao isolamento social;
fortalecimento dos vínculos comunitários;
grupos de convivência;
atividades culturais;
atividades de lazer;
estímulo à aprendizagem;
oficinas de memória e cognição;
acompanhamento psicológico quando necessário;
identificação de sinais de depressão, ansiedade, sofrimento e declínio cognitivo.
A abordagem da OMS para envelhecimento saudável considera tanto as capacidades físicas quanto as mentais e o ambiente em que a pessoa vive.
EIXO 3 – ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO
Promover:
alimentação adequada e saudável;
prevenção da desnutrição;
identificação de risco nutricional;
hidratação adequada;
educação alimentar;
acompanhamento nutricional quando necessário;
acesso regular a alimentos adequados;
atenção especial às pessoas idosas em situação de pobreza ou insegurança alimentar.
EIXO 4 – MOVIMENTO, EXERCÍCIO E MOBILIDADE
Criar programas de:
caminhada;
dança;
alongamento;
exercícios de força;
equilíbrio;
atividades aquáticas;
práticas corporais;
atividades recreativas;
fisioterapia preventiva e reabilitadora, quando indicada.
O objetivo não é estabelecer um padrão físico único, mas preservar a mobilidade, autonomia e capacidade funcional de cada pessoa.
EIXO 5 – COGNIÇÃO E APRENDIZAGEM AO LONGO DA VIDA
Estimular:
leitura;
escrita;
música;
artes;
tecnologia;
educação digital;
novos idiomas;
jogos e atividades cognitivas;
cursos e universidades abertas;
educação financeira;
educação para direitos;
participação em projetos intergeracionais.
EIXO 6 – CONVIVÊNCIA E PARTICIPAÇÃO SOCIAL
Criar oportunidades para que as pessoas idosas participem de:
associações;
coletivos;
conselhos de direitos;
movimentos sociais;
atividades culturais;
atividades comunitárias;
voluntariado;
projetos intergeracionais;
atividades esportivas;
ações ambientais;
atividades políticas e cidadãs.
O envelhecimento ativo não significa apenas permanecer fisicamente ativo: significa também participar da sociedade e exercer cidadania.
EIXO 7 – PREVENÇÃO DE VIOLÊNCIAS
Implantar mecanismos para identificar e encaminhar situações de:
violência física;
violência psicológica;
violência patrimonial;
violência financeira;
violência sexual;
negligência;
abandono;
discriminação por idade;
apropriação indevida de renda ou patrimônio;
golpes e fraudes.
Toda suspeita deverá receber acolhimento, registro, orientação e encaminhamento aos órgãos competentes.
EIXO 8 – SEGURANÇA E PROTEÇÃO SOCIAL
Promover ações relacionadas a:
benefícios sociais;
previdência;
assistência social;
moradia;
segurança alimentar;
transporte;
acessibilidade;
proteção contra violência;
educação financeira;
prevenção de golpes;
orientação jurídica;
acesso à documentação e serviços públicos.
EIXO 9 – AMBIENTES AMIGÁVEIS À PESSOA IDOSA
Os espaços públicos e comunitários devem favorecer:
acessibilidade;
calçadas adequadas;
iluminação;
bancos e áreas de descanso;
banheiros acessíveis;
transporte acessível;
sinalização adequada;
segurança;
áreas verdes;
espaços de convivência;
equipamentos culturais e esportivos.
A OMS considera ambientes amigáveis fundamentais para permitir que pessoas idosas mantenham suas capacidades e realizem aquilo que valorizam.
EIXO 10 – CUIDADO INTEGRADO
Quando houver necessidade de acompanhamento contínuo, deverá ser elaborado um Plano Individual de Cuidado, considerando:
condições de saúde;
capacidade funcional;
capacidade cognitiva;
mobilidade;
visão;
audição;
nutrição;
saúde psicológica;
condições sociais;
rede de apoio;
necessidades de cuidado;
preferências e objetivos da pessoa idosa.
Esse modelo dialoga diretamente com a abordagem ICOPE – Integrated Care for Older People, da OMS, que recomenda avaliação centrada na pessoa, identificação das necessidades sociais e de saúde e elaboração de plano personalizado.
6. AVALIAÇÃO INTEGRAL
A avaliação inicial deverá observar, no mínimo:
Saúde
doenças existentes;
medicamentos;
vacinação;
dor;
pressão arterial;
fatores de risco.
Capacidade funcional
caminhar;
levantar-se;
realizar atividades domésticas;
realizar autocuidado;
utilizar transporte;
realizar atividades da vida diária.
Cognição
memória;
orientação;
capacidade de decisão;
percepção de alterações cognitivas.
Sentidos
visão;
audição.
Saúde mental
humor;
ansiedade;
solidão;
vínculos sociais;
interesse pelas atividades.
Nutrição
alimentação;
perda de peso;
dificuldade para mastigar ou engolir;
segurança alimentar.
Ambiente
condições da residência;
acessibilidade;
risco de quedas;
transporte;
segurança territorial.
Proteção
suspeita de violência;
negligência;
abandono;
exploração financeira.
7. PLANO INDIVIDUAL DE ENVELHECIMENTO ATIVO
Após a avaliação, cada participante poderá construir, com apoio da equipe, um plano contendo:
Minha saúde: __________
Minha atividade física: _______
Minha alimentação: _________
Minha saúde mental: ________
Minha convivência social: ________
Meu aprendizado: _________
Minha participação comunitária: ______
Meus objetivos para os próximos 6 meses: __
Apoios de que necessito: _______
8. EQUIPE INTERDISCIPLINAR
Sempre que possível, o programa deverá envolver:
médico;
enfermeiro;
psicólogo;
nutricionista;
fisioterapeuta;
terapeuta ocupacional;
assistente social;
educador físico;
profissional de saúde bucal;
profissionais de cultura e educação;
agentes comunitários;
profissionais da área jurídica e de direitos humanos.
A composição poderá ser adaptada à realidade de cada território.
9. REDE DE PROTEÇÃO
O protocolo deverá estabelecer fluxo de encaminhamento para:
Saúde → UBS, serviços especializados e rede de saúde.
Assistência social → CRAS, CREAS e demais serviços.
Direitos → Defensoria Pública, Ministério Público, Ouvidorias e Conselhos de Direitos.
Violência → serviços especializados e órgãos de proteção competentes.
Moradia → órgãos municipais, estaduais e federais responsáveis pela política habitacional.
Cultura, esporte e educação → equipamentos públicos e organizações comunitárias.
10. INDICADORES DE RESULTADO
O programa deverá acompanhar indicadores como:
número de pessoas atendidas;
percentual com avaliação integral realizada;
participação em atividades físicas;
participação em atividades culturais;
participação comunitária;
acesso aos serviços de saúde;
vacinação;
acompanhamento nutricional;
ocorrência de quedas;
isolamento social;
encaminhamentos realizados;
situações de violência identificadas;
acesso a benefícios e direitos;
evolução da capacidade funcional;
satisfação das pessoas participantes.
A OMS publicou, em 2025, um framework específico de indicadores para monitorar a implementação da Década do Envelhecimento Saudável 2021–2030, reforçando a importância de transformar as ações em resultados mensuráveis.
11. GOVERNANÇA
A implementação deverá utilizar uma abordagem de toda a sociedade e de todo o governo, envolvendo:
Poder Público + Sociedade Civil + Universidades + Serviços de Saúde + Organizações Comunitárias + Pessoas Idosas + Famílias + Setor Privado.
A própria Década da ONU propõe essa colaboração ampla para melhorar a vida das pessoas idosas, suas famílias e comunidades.
12. QUATRO GRANDES AÇÕES DA DÉCADA DA ONU
O protocolo deverá estar organizado em torno das quatro áreas de ação da Década do Envelhecimento Saudável:
1. MUDAR A FORMA COMO PENSAMOS SOBRE IDADE E ENVELHECIMENTO
Combater o idadismo e os estereótipos relacionados à velhice.
2. CRIAR COMUNIDADES QUE FAVOREÇAM AS CAPACIDADES DAS PESSOAS IDOSAS
Desenvolver cidades e comunidades acessíveis, seguras e inclusivas.
3. OFERECER CUIDADOS INTEGRADOS E CENTRADOS NA PESSOA
Integrar saúde e assistência, respeitando necessidades, preferências e autonomia.
4. GARANTIR ACESSO A CUIDADOS DE LONGA DURAÇÃO
Garantir apoio às pessoas que necessitam de cuidados continuados, preservando dignidade, direitos e qualidade de vida.
Essas quatro áreas constituem o núcleo de ação da Década das Nações Unidas do Envelhecimento Saudável 2021–2030.
13. FRASE-SÍNTESE DO PROTOCOLO
ENVELHECER COM SAÚDE É MAIS DO QUE VIVER MAIS.
É VIVER COM AUTONOMIA, DIGNIDADE, PARTICIPAÇÃO, SEGURANÇA, AFETO, DIREITOS E QUALIDADE DE VIDA.
14. REFERÊNCIAS INTERNACIONAIS
ONU – Plano de Ação Internacional de Madri sobre Envelhecimento – 2002: estabelece três grandes prioridades: pessoas idosas e desenvolvimento; promoção da saúde e do bem-estar na velhice; e ambientes favoráveis e de apoio.
ONU – Década do Envelhecimento Saudável 2021–2030: proclamada pela Assembleia Geral da ONU por meio da Resolução 75/131.
OMS – Active Ageing: A Policy Framework – 2002: fundamenta o envelhecimento ativo nos pilares saúde, participação e segurança.
OMS – Década do Envelhecimento Saudável 2021–2030: define envelhecimento saudável a partir da capacidade funcional e estabelece quatro áreas prioritárias de ação.
OMS – ICOPE: estabelece uma abordagem de atenção integrada, centrada na pessoa, para preservar capacidade intrínseca e capacidade funcional.

